Uma curadoria com muito axé e na companhia das alegrias e das travessuras dos erês
- Rodrigo Pablo
- 13 de dez. de 2022
- 3 min de leitura
Atualizado: 29 de set. de 2023

A poesia de Elisa Lucinda abre os caminhos dessa prosa com encantamento, mistérios e adivinhações.
Quem é a menina transparente? O que ela guarda e o que nos ensina? Com sua magia ela encanta e dança por aí trazendo com ela garotas espertas, que saúdam suas ancestralidades e nos dizem como são diferentes umas das outras, como se vêem e como querem ser vistas e tratadas.
Em "O mundo no Black Power de Tayó", de Kiusam de Oliveira, a menina de seis anos assume a beleza do seu cabelo crespo e de todo o seu corpo preto. Com sua alta autoestima ela valoriza as culturas africanas e afrodiaspóricas a partir dos conhecimentos que lhes foram passados por sua mãe e por todos os povos pretos que viveram antes dela.
Com apenas seis anos Tayó demostra ter muita sabedoria. Conhecê-la é importante para todas as pessoas de todas as idades. Todos os livros escolhidos que estão aqui trazem saberes que muita gente não aprendeu quando tinha menos idade e nem mesmo sendo pessoa adulta. Eles ensinam a nós, pessoas pretas, a nos amarmos, nos respeitarmos, e ensina às outras pessoas a nos amarem e nos respeitarem também. Em "Princesas negras", de Ariane Celestino Meireles e Edileuza Penha de Souza, todas as meninas são convidadas a pensar sobre sermos vistas e
sentidas. Além de querermos ser vistas com respeito, queremos também que as pessoas lembrem que temos sentimentos, desejos, sonhos, enquanto humanas que somos. Assim como Tayó, nós, princesas negras carregamos sabedoria nos cabelos, nos conhecimentos que possuímos, ensinados por nossas mães, avós que vieram antes de nós.
Desde os tempos de nossas avós vamos aprendendo a nos impor, assim como "Zacimbinha: princesa, sapeca e guerreira", de Noélia Miranda, que lutou pela libertação da população preta escravizada no norte do estado do Espírito Santo, sendo uma referência na luta contra a escravização no Brasil, nosso país.
Desde a infância, na convivência com as pessoas mais velhas e mais novas da sua família, da sua comunidade, cultivou a sabedoria e a coragem necessárias para a luta antirracista no dia-a-dia. A oralidade, a ancestralidade, os alimentos, as brincadeiras, a música e os itans estavam presentes em toda a parte. Esses conhecimentos são compartilhados pelo livro e vocês podem espalhá-los por aí, dando continuidade a eles como fez Zacimbinha, passando e transformando de geração em geração.
Em “Entre ervas e unção”, de Elis Gonçalves, uma menina vive uma mistura de culturas, religiões, modos de vida em família, que ensinam muito a ela e deixam-na muito feliz. Com essa história podemos reconhecer a importância do respeito às diferenças e o que elas podem nos ensinar, sobretudo o respeito às culturas e religiões de matrizes africanas e afro-brasileiras, que ainda são alvo de muitas discriminações, de racismo religioso.
"Meu crespo é de rainha", de bell hooks, é uma continuidade sobre o tal respeito aos diferentes modos de ser de cada menina preta refletidos nos penteados, cortes e enfeites nos cabelos, valorizando as culturas e estéticas pretas, africanas e da diáspora africana. Jeitos de dançar, de caminhar, de cantar, de mexer o corpo pelo mundo sendo quem somos e quem quisermos ser.
Com "Meninas sonhadoras, mulheres cientistas", de Flávia Martins de Carvalho, é possível conhecermos algumas mulheres reunidas, majoritariamente pretas, que trabalham em diferentes profissões que escolheram. Meninas-Mulheres que buscam transformar o mundo em que vivemos em um mundo mais justo, menos racista e menos machista, trabalhando em lugares que antes só trabalhavam homens e mulheres brancas ou onde já trabalhavam mulheres pretas há muito tempo, mas não eram reconhecidas.
Essas mulheres que vieram antes, algumas que já morreram e outras ainda estão vivas e trabalhando. Todas nos inspiram e nos mostram muitas possibilidades de quem podemos ser. Podemos ser muitas.
Curadoria feita por: Mara Pereira

Terra de fundo de rio, areia de fundo de mar. Planta semente, cheiro de
mato molhado. Assovio de vento, canto de pássaro. Educadora em
conversa com a ancestralidade. Interessada em uma educação
antirracista por meio de encontros, palavras e imagens; artes,
conhecimentos africanos, afrodiaspóricos e indígenas; com ênfase em
infâncias e crianças. Co-fundadora e co-realizadora do projeto Biblioteca
Comunitária Alecrim. Idealizadora, coordenadora e curadora-educadora
do projeto Erù-Iyá: movimentos antirracistas. Mestra em Artes Visuais
(PPGArtes-UERJ), especialista em História da Arte e Arquitetura no Brasil
(PUC-RJ) e graduada em Produção Cultural (UFF). Há mais de vinte
anos atuando no campo da educação em instituições culturais. Foi
educadora no Paço Imperial, CCBB-RJ, MAC-Niterói, coordenadora
pedagógica no CCBB-RJ; coordenadora de ações e conteúdo no Núcleo
Experimental de Educação e Arte - MAM-RJ; educadora-supervisora no
Museu de Arte do Rio; coordenadora de educação da Biblioteca Parque
Estadual, dentre outras instituições e projetos.






Os livros de Noelia são lindos e inspiradores! Parabéns!